Tenho saudades de discutir os livros, a política, a ciência, a humanidade… com o meu pai
O meu pai foi o homem mais culto que conheci.
Nunca me impôs ideias, ouvia-me e discutia os seus pontos de vista, bem argumentados, pausadamente e tão sereno que quase me convencia, mesmo quando não estávamos de acordo.
E eu sentia-me honrada nas minhas opiniões e reforçada (enriquecida) pelas dele.
Com a idade o seu corpo deixou de responder com a mesma força. A vitalidade das suas ideias não correspondia às do seu corpo.
Meu pai era um senhor, “a bem dizer da palavra”. Nunca precisou de ajuda de ninguém. Lutou muito e venceu, com dor e ciência.
Com o tempo deixou de ser o meu protector. E quando precisava de ajuda, para descer o carro, por exemplo, sentia-se vexado. Foi traído pelo seu corpo. Foi ficando velho mas, com um cérebro de génio.
No hospital, ao fim de duas semanas de internamento, a médica disse-me que ele já, não tinha nada, que não reagia porque tinha desistido de viver.
A primeira reacção foi ficar magoada: “Como poderia um homem tão amado desistir de viver?”
Depois lembrei-me de como o seu corpo envelheceu tanto nos últimos tempos e +pensei que talvez tivesse razão.
Despedi-me dele com um sorriso de paz interior e com a serenidade que sempre me mostrou.
Daquele homem que já não olhava como um pai, mas como um grande Homem, o confidente e maior dos meus amigos, ficou-me uma riqueza interior, um expemplo de dignidade e integridade…
Quando morreu, foi uma grande perda, porque não morreu apenas um homem, com ele foram-se as ideias, a integridade, o exemplo e uma maneira única de estar na vida,
A mim resta-me a grande saudade e a honra de ter sido sua filha.
Filomena Ferreira
31/03/2011