segunda-feira, 23 de maio de 2011

Correm-me palavras como um rio, mas a quem dizê-las?

Tenho saudades de discutir os livros, a política, a ciência, a humanidade… com o meu pai


O meu pai foi o homem mais culto que conheci.


Nunca me impôs ideias, ouvia-me e discutia os seus pontos de vista, bem argumentados, pausadamente e tão sereno que quase me convencia, mesmo quando não estávamos de acordo.


E eu sentia-me honrada nas minhas opiniões e reforçada (enriquecida) pelas dele.


Com a idade o seu corpo deixou de responder com a mesma força. A vitalidade das suas ideias não correspondia às do seu corpo.


Meu pai era um senhor, “a bem dizer da palavra”. Nunca precisou de ajuda de ninguém. Lutou muito e venceu, com dor e ciência.



Com o tempo deixou de ser o meu protector. E quando precisava de ajuda, para descer o carro, por exemplo, sentia-se vexado. Foi traído pelo seu corpo. Foi ficando velho mas, com um cérebro de génio.


No hospital, ao fim de duas semanas de internamento, a médica disse-me que ele já, não tinha nada, que não reagia porque tinha desistido de viver.


A primeira reacção foi ficar magoada: “Como poderia um homem tão amado desistir de viver?”


Depois lembrei-me de como o seu corpo envelheceu tanto nos últimos tempos e +pensei que talvez tivesse razão.


Despedi-me dele com um sorriso de paz interior e com a serenidade que sempre me mostrou.


Daquele homem que já não olhava como um pai, mas como um grande Homem, o confidente e maior dos meus amigos, ficou-me uma riqueza interior, um expemplo de dignidade e integridade…


Quando morreu, foi uma grande perda, porque não morreu apenas um homem, com ele foram-se as ideias, a integridade, o exemplo e uma maneira única de estar na vida,


A mim resta-me a grande saudade e a honra de ter sido sua filha.



Filomena Ferreira


31/03/2011

Mas afinal, o que é um rebanho?

Na faculdade, numa aula de Introdução ao Direito o professor, visivelmente conturbado, interpelou-nos da seguinte forma:


- Oh srs professores o que é que vocês agora, ensinam aos vossos alunos que um aluno meu (da Faculdade de Direito onde leccionava também) não sabia o que era um rebanho? Isso no meu tempo ensinava-se no 3º ano.


Eu raramente intervenho nas aulas, pertenço ao clã dos ouvintes, numa profunda constrição neste sentimento de derrota (que os tempos não são para outra coisa) respondi-lhe:


- O sr. Ainda tem sorte, porque partilha essa angústia com pessoas que o entendem, mas tempos hão-de vir em que o senhor ao desabafar com um colega, mais não receberá que um olhar boquiaberto e atónito, para ouvir a pergunta:


- Mas afinal, o que é um rebanho?


Filomena Ferreira


23 de Maio de 2011