quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Contos africanos de minha autoria II

Mojumba
Pretito bonito!
Sem mancha na pele, sem sinal, sem marca...
Sua pele de um negrume macio, brilhava. Até dava vontade de abraçar, aconchegar, porque deveria concerteza ser macio e quente.
Mas Mojumba era meio gato, meio cão: ora chegava junto de nós com sorriso branco e grande, ora fugia assanhado.
Mojumba era como macaco: pulava muro, subia coqueiro, roubava fruta.
Mojumba perdeu a mãe no mato.
Veio para a cidade com a menina. Cresceu no meio da gente, se tornou um rapaz bonito. Mas perdeu seu sorriso grande e branco.
Vai à escola de pasta com os meninos do bairro.
Não digam nada a ninguém, mas tenho saudades daquele negrito, barriga de ginguba, a gritar, a correr pelo quintal, só de cueca, deitando fora o sapato, o calção, a camisa, que a mãe da menina lhe tinha vestido.

Não sei onde pára Mojumba (não era este o seu nome), perdi o contacto com quase todos os meus amigos ao deixar Angola. Mas Mojumba continua no meu pensamento, ao fim de tantos e tantos anos. Mojumba ia comigo para a escola, construía-me carrinhos de lata, fisgas de arame e elástico, fazia carrinhos de rolamentos como ninguém, inventava brincadeiras e estar com ele era muito divertido. Mojumba era meu AMIGO.

Autor: Mª Filomena Ferreira
20/01/2010

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Contos africanos de minha autoria I

A fogueira é uma mãe à espera em cada cubata



Maxito Maué, menino oriundo, não das savanas, mas da floresta tropical, onde a natureza brota frondosa e agressiva...


Menino que corria mato e tudo conhecia, vivia na sanzala no meio do batuque e da cubata de palha e colmo. Mesmo no largo da sanzala, onde mamã bate o pilão, para fazer a fuba, sempre se acende a fogueira para mostrar a presença do guerreiro de tanga e lança na mão, não vá o leão seguindo o cheiro do nené que nasceu, entrar descuidado.


Aquela fogueira parece o centro de África, quando acesa à noite...


Menino Maué correu atrás de animal sem saber que animal. Correu atrás e se perdeu no mato.


Ninguém ligou, porque Maxito conhecia bem todo o mato e até lugar onde o homem (que chegou à Lua), nunca havia pisado.


Veio a noite e Maxito não regressou.

Sanzala se mexia e Maxito não regressava.

Sanzala ecoou na noite, canção de mamã aflita e Maxito não disse nada.


Vozes roucas se calaram, se calou a batucada: _ pum ....pum .......pum!


Na calada da noite ficou a fogueira acesa, para que de longe Maxito encontrasse a luz na caminhada.


No silêncio da noite calada, à volta da fogueira grande, toda a gente esperava, mas Maxito Maué não voltava.


Veio a madrugada ...

difusa e embaciada,

fogueira quase apagada...

E Maxito Maué, nada!


Já de madrugada, a vida chamava e as pessoas cansadas, se levantaram lentamente...

Arrastadas até à saída da sanzala, onde o himbondeiro velho abria os braços fortes e acompanhava todos os dias, a brincadeira da criançada.


A malta que chegava e ali ficava a olhar... chamava a atenção da outra, que intrigada se aproximava para matar sua curiosidade.


Então, quando todos ali se juntaram perto do himbondeiro,

incrédulos!

ninguém acreditava, ninguém dizia nada:


No buraco do velho himbondeiro, num ninho de palha ajeitada, Maxito Maué aninhado dormia.

A fogueira trouxera Maxito à sanzala!


Em África,

a fogueira é uma mãe à espera,

à porta de cada cubata,

que fez do himbondeiro o ninho dela.

Dedicado a meu pai e a todos quantos nasceram em África, como eu.
Autor: Mª Filomena Ferreira 19/01/2010