Meu coração ficou em África, mais propriamente em Angola.
Todas as recordações, todas as experiências de vida que queria partilhar como forma de convívio numa tentativa de sobreviver num lugar que não era meu, me eram extremamente penosas de recordar. Era-me difícil conviver não podendo partilhar experiências, fingir que não tinha um passado. E sem passado toda a minha existência não tinha nexo. Todas as minhas conversas e experiências eram baseadas num contexto completamente diferente daquele em que me inseria e os sonhos que queria partilhar, não eram a noção de sonho para o contexto em que me inseria. Por isso todas as minhas conversas de experiências baseadas num real, mas na tentativa de as ajustar ao contexto, saíam desconexadas, sem sentido, absurdas, principalmente porque me era proibida uma palavra -Angola (Ela era tão carregada de dor, que só queria enterrá-la no mais fundo do meu peito).
Fui construindo um passado a partir de 75.
Arranjei uma família, os que estão no cemitério, com histórias de família. Arranjei amigos, casei e construí a minha própria família…
Mas como costumo dizer: “Entre o cá e o lá nunca fui de lado nenhum”.
Sou constantemente atormentada por recordações de um passado, mas não posso partilhá-lo, porque elas não fazem sentido aos outros.
Sou de um outro planeta, um planeta que desapareceu!
Filomena Ferreira
6/05/2013