http://sorisomail.com/img/regras-empresa-2242.jpgAli estava ela, submissa, tentando ser simpática, sentada à espera da entrevista dos recursos humanos para dar entrada numa grande empresa.
Pensei:
-Igualzinha à mãe. Quando querem alguma coisa são de uma empatia extraordinária. Sabem ser tão agradáveis. Mas depois de conseguirem o que querem são de um despotismo surpreendente. Quando possuídos de poder tornam-se vorazes.
Eu havia experimentado bem a tirania da sua progenitora, conhecia de cor, através dela, as palavras: coação, ameaça, abuso de poder, insultos, humilhação…
Poderia agora satisfazer o meu ego, exercer o meu domínio e fazê-la provar um trago do veneno que aquela iníqua mulher me havia feito sorver
De repente, a rebate:
-Será? Será mesmo como aquela generatriz …
Virei-me para o director dos recursos humanos e sem mais disse-lhe:
-Dá-lhe uma oportunidade!
Não sei porquê? Nunca o saberei, mas teria sido mais fácil acabar por ali…
………
Comprometida a sua imagem de sucesso, C. desceu as escadas e trauteou uma canção num assobio surdo. Estava perdida.
Segura de si, nunca sentira a terra tremer-lhe debaixo dos pés. Apenas, com um sorriso C. possuía o mundo, mas naquele momento, tudo isso tinha sido posto em causa e sentia-se um ponto no universo, incapaz de reagir. Um nervoso miudinho apoderou-se dela: não conseguia pensar, nem parar aquela agitação.
Eu, sentia um vigor fora do comum. Fora arrebatadora. Ao mesmo tempo sentia um nozinho no estômago. Mas aquela criatura regressou na manhã seguinte como um leão.
……..
Convidei-a para um jantar da empresa. Incrédula, fitou-me apreensiva, com um meio sorriso incapaz de sorrir. Adivinhei-lhe o pensamento: - O que me espera neste jantar?
Para uma sexta-feira à noite tinha mil e um planos e qualquer deles melhor que um jantar de empresa.
………
Uma semana num cruzeiro, dia e noite, com as mesmas caras…
Estava cansada da rivalidade, da competição, da chacota, de toda a adversidade levada à exaustão, mas como dizer que não?
A garota era rija, nunca dizia que não. Senti uma enorme compaixão. Tive até vontade de lhe pedir perdão, indignada comigo mesmo. Mesmo quando tentava, já em vão recordar o rosto da sua progenitora, mesmo assim, já não conseguia sentir-lhe raiva, apenas vontade de lhe confessar tudo, a razão do meu comportamento e pedir-lhe perdão.
De súbito um leve clamor, despertou-me desta cogitação e fez-me erguer o olhar. De pé, ela ergueu a taça na minha direcção: - Quero erguer esta taça a uma pessoa que admiro muito e que muito me ensinou pelas oportunidades que me proporcionou nesta árdua caminhada. Pelas tarefas confiadas, pelos desafios lançados em encruzilhadas que só aos mais experientes eram atribuídos, tornou-me a mais jovem gestora entre as chefias que aqui se encontram. A ela, um muito obrigado.
Fiquei por terra. Nem queria acreditar. Toda aquela vingança arquitectada contra a filha do meu inimigo, tinha-a tornado forte.
Ao mesmo tempo, senti-me contemplada de perdão, porque o remorso há já alguns dias que me lapidava o coração. Senti um enorme alívio. Já não sentia ódio, mas uma enorme vontade de amar o mundo.
Sentia-me perdoada, menos por Aquele que conhecia o meu verdadeiro delito.
Assim que chegámos e fizemos as nossas despedidas, dirigi-me a uma igreja. Caí de joelhos, curvada, mãos unidas de dedos cruzados, apertadas contra o peito. Diante da enorme Cruz, disse: - OBRIGADO, Meu Deus por todas as pessoas que colocaste no meu caminho, até daquelas de quem não gostei.
Não Lhe pedi perdão, apenas, agradeci por ser capaz de amar para além do meu ódio. Agradeci pela aquela lição.
26/04/2011
Filomena Ferreira
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