Hoje é dia de terapia, após
uma semana de interrupção por não haver vaga, depois da primeira rodagem de
sessões. É que se estava à espera que eu já estivesse recuperada, mas nem
sombras disso. Senti que ia ser um daqueles dias... _Ultimamente ando com estes
pressentimentos. Andei às voltas em Carcavelos, para estacionar o carro e
deixei-o numa curva mal estacionado e quando tentei estacionar melhor o carro
deu um ligeiro arranque e não funcionou mais. Deixei-o com o triângulo no vidro
de trás que por estar numa curva, que nem estrada tinha para o colocar no chão.
No comboio, no banco ao lado
está uma mulher já de idade avançada, que perante o revisor puxa de um molho de
cartões daqueles recarregáveis e foi passando um a um: - Veja se é este!
Cada cartão devolvido: - Não,
não é este!
Ela voltava a colocá-lo no
molho. Alguns rostos no comboio começaram a olhar para o chão escondendo
discretamente o seu sorriso. Lembrei-me da minha mãe. O que o tempo faz as
pessoas!
Perante o desespero, como a
mulher continuava a juntar os cartões que o revisor ia passando na maquineta,
diz este para a mulher: -Dê cá isso!
Pegou no molho e passou-os um
a um, ao que no final lhe diz: -A senhora passou dois cartões, só devia ter
passado um. Assim pagou dois bilhetes.
-Sabe, vou para o hospital. O
meu filho não pôde vir comigo. Quando é assim ele dá-me um cartão porque já não
sei do outro e eu não tinha a certeza se tinha passado o cartão então
experimentei outro.
(Risada)
Esta história, embora tivesse
olhado para a senhora com o certo carinho, deixou-me ainda mais deprimida.
Primeiro lembrou-me a minha mãe. Conhecemos s nossos pais, do que eles eram e
como foram ficando com o passar do tempo. Depois vi a minha própria imagem,
daqui a uns anos.
Depois, já fora do comboio,
pelo caminho vi um cartaz que dizia, (penso que eram palavras do planeta):
Venha conhecer o meu futuro porque você não tem futuro, já o gastou no
presente.
E estas palavras puseram-me a
pensar que trabalhei vida inteira, a descontar para me sentir protegida na
doença e na velhice. E não me sinto nada protegida na doença porque ando em
pânico: se não recupero a minha voz ou que seja obrigada a trabalhar nestas
condições. Na velhice também não, porque vou ter de trabalhar até aos 67 anos
para ter uma reforma que me dê estabilidade financeira, para sobreviver os
poucos anos que cá andar, se os andar e lá chegar.
Realmente não tenho futuro.
Deveria ser um descanso, pelo menos já não pensaria mais na minha velhice; não
teria medo. Mas fico triste e ponho-me a pensar em que condições viverei, e mais...
como professora as crianças foram sempre uma prioridade; “o futuro deste
planeta”; a sorrir às suas coisas infantis e agora, pergunto: Para que servem
as crianças, se não há futuro? Olho para elas como uma sobrecarga, porque na
minha velhice terei que continuar a ganhar para mim e para elas, além de serem
mais seres humanos a sobrecarregar o planeta.
Que raio de sociedade é esta?
De que serve o ser humano? Ele está a dar cabo de tudo!
E até chego a pensar que o
terrorismo, as inundações, os cismos, os furacões... podem ajudar melhorar a
condição do mundo...
O que penso eu?! Estou louca
com certeza! Nunca pensei assim e começo até a pensar que sou um perigo para
esta sociedade, tal como a conhecemos. Estou louca!
É o pior é que me pareço com
uma pessoa normal.
13/09/2017

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